A alvorada esgueirou-se para o jardim como uma ladra. O cinza do céu ficou ainda mais claro, e as árvores e os arbustos tomaram um tom de verde-escuro sob suas estolas de neve. Alguns criados saíram e observaram-na durante algum tempo, mas não prestou atenção neles, e eles rapidamente voltaram para dentro, para onde fazia mais calor. Sansa viu a Senhora Lysa olhá-la de sua varanda, enrolada num roupão de veludo azul debruado de pele de raposa, mas quando voltou a olhar a tia tinha desaparecido. Meistre Colemon esticou a cabeça da colônia de corvos e espreitou para baixo durante algum tempo, magricelo e tremendo, mas curioso.
As pontes não paravam de ruir. Havia uma ponte coberta entre o arsenal e a fortaleza principal, e outra que ligava o quarto andar da torre sineira ao segundo andar da colônia de corvos, mas por mais cuidadosa que fosse ao esculpi-las, elas não resistiam. Na terceira vez que uma delas ruiu, soltou uma praga em voz alta e sentou-se, numa frustração impotente.
– Comprima a neve em volta de uma vareta, Sansa.
Não sabia havia quanto tempo ele estava a observá-la, ou quando tinha voltado do Vale.
– Uma vareta? – perguntou.
– Isso vai lhe dar suficiente resistência para se manter, creio eu – disse Petyr. – Posso entrar em seu castelo, senhora?
Sansa estava desconfiada.
– Não o quebre. Seja...
– ... gentil? – ele sorriu. – Winterfell resistiu a inimigos mais ferozes do que eu. Isto
– Sim – admitiu Sansa.
Ele caminhou ao longo do exterior das muralhas.
– Costumava sonhar com ele, naqueles anos que se seguiram a Cat ter ido para o Norte com Eddard Stark. Em meus sonhos era sempre um lugar escuro e frio.
– Não. Sempre foi quente, mesmo quando nevava. Água das nascentes termais é canalizada através das paredes para aquecê-las, e dentro dos jardins de vidro era sempre como o mais quente dia de verão. – Levantou-se, erguendo-se acima do grande castelo branco. – Não consigo imaginar como fazer o telhado de vidro por cima dos jardins.
Mindinho afagou o queixo, onde tinha a barba antes de Lysa lhe pedir para raspá-la.
– O vidro estava preso em molduras, não estava? Sua resposta são gravetos. Tire a casca deles e cruze-os, e use casca de árvore para atá-los uns aos outros e formar molduras. Eu mostro. – Deslocou-se pelo jardim, recolhendo paus e gravetos e sacudindo a neve deles. Quando obteve o suficiente, passou por cima de ambas as muralhas com um longo passo e agachou-se no meio do pátio. Sansa aproximou-se para ver o que ele estava fazendo. As mãos de Petyr eram hábeis e seguras, e não muito depois tinha uma treliça de gravetos, muito parecida com aquela que servia de telhado aos jardins de vidro de Winterfell. – Vamos ter de imaginar o vidro, certamente – disse quando lhe entregou.
– Isto é perfeito – disse Sansa.
Ele tocou o rosto dela.
– E isto também.
Sansa não compreendeu.
– Isto o quê?
– O seu sorriso, senhora. Faço-lhe outro?
– Se quiser.
– Nada me agradaria mais.
Ela ergueu as paredes dos jardins de vidro enquanto Mindinho os cobria, e quando terminaram essa tarefa, ele ajudou-a a prolongar as muralhas e a construir o edifício dos guardas. Quando usou varetas para as pontes cobertas, elas resistiram, tal como ele havia dito que resistiriam. A Primeira Fortaleza era bastante simples, uma antiga torre redonda e atarracada, mas Sansa voltou a ficar sem saber o que fazer quando chegou a hora de pôr as gárgulas ao longo do topo. De novo, ele tinha a solução.
– Tem estado nevando em seu castelo, senhora – destacou. – Com que se parecem as gárgulas quando estão cobertas de neve?
Sansa fechou os olhos para vê-las em sua memória.
– São só protuberâncias brancas.
– Muito bem. Gárgulas são difíceis, mas protuberâncias brancas devem ser fáceis. – E eram.
A Torre Quebrada foi ainda mais simples. Fizeram juntos uma torre alta, ajoelhando-se lado a lado para rolá-la até ficar lisa, e quando a ergueram, Sansa enfiou os dedos no topo, agarrou um punhado de neve e atirou em cheio no rosto dele. Petyr soltou um ganido quando a neve se enfiou em seu colarinho.
– Isso não foi nada cavalheiresco, senhora.
– Tal como não o foi trazer-me para cá, quando jurou que me levaria para casa.
Perguntou a si mesma de onde teria vindo a coragem, para lhe falar com tanta franqueza.
O rosto dele ficou sério.
– Sim, enganei-a sobre isso... e sobre outra coisa também.
Sansa sentiu o estômago se agitando.
– Que outra coisa?
– Disse-lhe que nada me agradaria mais do que ajudá-la com o seu castelo. Temo que também tenha sido uma mentira. Há outra coisa que me agradaria mais. – Aproximou-se. – Isto.